18 maio Técio Lins e Silva: 100 Anos de História no Escritório Mais Icônico do Brasil
A advocacia criminal brasileira não é feita apenas de códigos e petições; ela é esculpida pela história, pela cultura e pela coragem. No vídeo em destaque, temos o privilégio de mergulhar em uma conversa extraordinária com Técio Lins e Silva, um dos maiores nomes do direito penal do país, que abre as portas de seu centenário e icônico escritório no Rio de Janeiro.
Com quase seis décadas de uma advocacia pulsante e uma vida pública invejável, Técio nos conduz por um labirinto de memórias que se confundem com a própria história política do Brasil.
Assista ao vídeo completo abaixo e acompanhe, a seguir, os principais marcos dessa trajetória fascinante.
Uma Dinastia Jurídica: Das Portas Pantográficas ao Coração do Rio
O escritório Lins e Silva nasceu na década de 1930, fundado pelos irmãos Raul, Evandro e Haroldo Lins e Silva. O que começou em uma sala modesta na Rua Primeiro de Março — com elevadores de portas pantográficas e uma farmácia homeopática no andar de baixo — expandiu-se e perpetuou-se através de Técio e Letícia Lins e Silva.
Hoje, ocupando andares inteiros de um edifício histórico, o escritório guarda relíquias que vão muito além do mobiliário:
- O Arquivo Morto Centenário: Diferente da modernidade “em nuvem” dos dias atuais, o arquivo físico do escritório preserva processos em papel carbonado e fotocópias da época da ditadura de Getúlio Vargas (Tribunal de Segurança Nacional, entre 1937 e 1945) e do regime militar pós-1964.
- Mobiliário com Arte: Mesas e estantes desenhadas sob medida no próprio chão do escritório por um carpinteiro genial, revelando a criatividade e a identidade única do espaço.
O Confessionário Barroco e a Verdade do Cliente
Um dos elementos mais intrigantes do escritório é um legítimo confessionário barroco baiano, arrematado por Técio em um leilão há muitos anos. Longe de ser apenas uma peça de decoração, o confessionário carrega uma metáfora profunda sobre a advocacia criminal.
“O primeiro contato com o cliente é aqui. Se o cliente vem aqui e não confessa, não tem como processar ou defendê-lo. Você precisa ouvir a verdade.” — Técio Lins e Silva.
Para Técio, a advocacia criminal exige uma conexão absoluta com a realidade dos fatos; o advogado precisa da verdade nua e crua para traçar a melhor estratégia técnica.
Bastidores do Poder: Prerrogativas e a Altura da Tribuna
Como ex-presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) por dois mandatos e com forte atuação internacional (chegando a chefiar delegações da ONU em Viena na década de 1980), Técio sempre foi um defensor intransigente das prerrogativas dos advogados.
Uma das histórias mais saborosas do vídeo envolve a famosa tribuna de defesa do Supremo Tribunal Federal (STF):
- Durante a gestão de Joaquim Barbosa na presidência do STF, a tribuna onde os advogados faziam suas sustentações orais foi “rebaixada” (afundada dois degraus). O advogado, literalmente, sumia e precisava falar olhando para cima.
- Inconformado com a quebra da igualdade constitucional (já que a lei prevê que não há hierarquia entre juízes, Ministério Público e advogados), Técio interveio diretamente com o sucessor, Ministro Ricardo Lewandowski.
- Ao comprovar que o rebaixamento fora uma decisão monocrática anterior e não do colegiado, Lewandowski atendeu ao pleito de Técio e restaurou a tribuna ao seu nível normal, devolvendo a dignidade visual à defesa.
Millôr Fernandes, Iberê Camargo e o Pasquim
A advocacia de Técio Lins e Silva nunca foi encastelada no juridiquês. Ele foi o advogado de defesa do genial Millôr Fernandes e de toda a turma do Pasquim durante os anos de chumbo da censura.
Entre as memórias divertidas, ele relembra quando Millôr foi denunciado por “ofensa à moral pública e aos bons costumes” por uma frase satírica sobre Jacqueline Onassis publicada no jornal. Com astúcia jurídica, Técio conseguiu empurrar o processo até a sua prescrição.
Paredes adornadas com quadros de Iberê Camargo e dedicatórias de Millôr mostram que a convivência com a arte moldou sua visão de mundo.
Raul Lins e Silva: O “Ourives da Prova”
Ao falar do pai, Raul Lins e Silva, a emoção de Técio é evidente. Descrito por Evandro Lins e Silva como o “ourives da prova”, Raul possuía uma sensibilidade quase cirúrgica para conduzir audiências e interrogar testemunhas — um talento que Técio define como algo nato, impossível de ser meramente ensinado em salas de aula.
Apesar do brilhantismo, a maior marca de Raul era a humildade extrema. Técio relembra com carinho que o pai fazia questão de andar de ônibus pelo Rio de Janeiro: “Eu quero sentir o povo, quero ver o povo sofrer”, dizia. O reflexo dessa simplicidade e generosidade foi visto em seu funeral, que reuniu mais de duas mil pessoas para se despedir do advogado.
O Que É Ser Advogado?
Para as novas gerações que assistem ao documentário, Técio Lins e Silva deixa uma lição atemporal. A advocacia — especialmente a criminal — não aceita amadorismo ou distração.
- Atenção Absoluta: É preciso estar 100% conectado aos juízes, testemunhas e ao clima dos julgamentos.
- Lealdade: Fidelidade irrestrita ao cliente e à causa.
- Cultura Geral: Conhecer arte, literatura e poesia não é capricho; é o que permite ao advogado entender as nuances, as dores e as dificuldades da vida humana.
Assista ao vídeo acima para absorver cada detalhe, risada e ensinamento deste mestre que há 60 anos honra a beca que herdou de seu pai.